Genótipo, Fenótipo e Obesidade

Resumo – Já é sabido que as alterações na alimentação podem reduzir as doenças crônicas, mas depois de décadas de pesquisas ainda surgem questões: o que é a dieta ideal para atingir este objetivo? É o consumo baixo de gorduras, como tradicionalmente recomendado? Ou uma dieta rica em gordura monoinsaturada como determinado pela dieta mediterrânea? Talvez uma dieta com grandes quantidades de gordura poliinsaturada. A resposta certa pode ser tudo o que precede, mas não para todos os indivíduos. Um fenômeno nas pesquisas e na prática da nutrição é a variabilidade interindividual em resposta a qualquer tipo de intervenção dietética. Sabe-se que há muitos outros fatores que influenciam as respostas em relação à dieta, como: a idade, o gênero, a pratica de atividade física, o consumo de álcool e tabaco, bem como a genética e que podem ajudar a identificar as populações vulneráveis. Ao conhecer todos esses fatores e a genética, os indivíduos poderão se beneficiar ainda mais das recomendações dietéticas. Esse potencial pode e deve ser desenvolvido no contexto da genômica nutricional que em conjunto com a biologia de sistemas pode fornecer as ferramentas para alcançar a prevenção e na terapia de doenças cardiovasculares. As evidências atuais com base em nutrigenética começaram a identificar os subgrupos de indivíduos que se beneficiarão mais com uma dieta com baixo teor de gordura, enquanto outros com dietas com maior teor de gorduras monoinsaturados ou poliinsaturados (ômega-3 e ômega-6). O progresso contínuo em Nutrigenômica permitirá no futuro, um aconselhamento dietético baseado na genética.

Introdução – A nutrigenômica estuda os efeitos funcionais dos nutrientes com o genoma, no nível molecular, celular e sistêmico, com o objetivo de auxiliar na prevenção e o tratamento de doenças, por meio da alimentação. As orientações dietéticas têm sido utilizadas desde os anos 90 para melhorar a saúde em geral principalmente na prevenção das doenças cardiovasculares (DCV), do câncer, da hipertensão e do diabetes. No entanto, sabe-se que algumas orientações não são eficazes para todos os indivíduos e que cada indivíduo possui uma particularidade em relação às alterações fisiológicas em resposta a ingestão dos nutrientes. Os mecanismos responsáveis pelas diferentes respostas das dietas ainda são complexos e não compreendidos. Mais recentemente os pesquisadores começaram examinar a relação entre os nutrientes com o gene (que é uma unidade do DNA que contém informações para uma determinada característica hereditária) e as alterações metabólicas para as doenças que podem ser desencadeadas por fatores ambientais como o tabagismo, o consumo de drogas, a exposição à poluição, a educação e o nível sócio-econômico. A ingestão alimentar é o fator ambiental a que estamos expostos de forma permanente, portanto, os hábitos alimentares podem ser um dos fatores ambientais mais importantes relacionados à modulação da expressão gênica durante a vida.

O ambiente como um modulator das variações genéticas. O exemplo da apolipoproteína E (APOE) – Lipoproteínas de baixa densidade (LDLs) constituem 70% do colesterol total, e só são capazes de circular no plasma por conterem uma porção protéica constituída principalmente pela apolipoproteína B (apo B). Estas partículas são formadas pela ação da lipoproteína lípase (LPL), enzima cuja ação é modulada pelas apolipoproteínas (apos) C-I C-II e C-III e E. A maneira pela qual a LDL chega ao seu destino, ou seja, células de tecidos periféricos são através da ligação de alta afinidade de sua apo B ao receptor de LDL (LDLR). Um gene que exerce uma forte influência sobre os níveis de LDL é o gene da APOE. Três diferentes seqüências, com freqüências polimórficas, que produzem duas trocas de aminoácidos foram identificadas no loco da APOE, codificando três alelos denominados E2, E3 e E4. Um grande número de investigações realizadas permite afirmar que a presença do alelo E4 determina o aumento dos níveis de LDL e colesterol total, enquanto o alelo E2, ao contrário, determina uma diminuição destes níveis. Ordovas et al (2007) em um grande estudo com variações genéticas estudou a variação genética com os resultados com três alelos da APOE na população, E4, E3 e E2 e verificou que o colesterol plasmático, o colesterol LDL (LDL-C), e os níveis de APOB são os mais altos em indivíduos portadores do E4, intermediário entre aqueles com E3, e menor naqueles com os alelos E2. No entanto, esses estudos também apontaram para a possibilidade de que os elevados níveis de LDL-C observada em indivíduos portadores do alelo E4 foram que se manifestaram principalmente na presença de uma dieta aterogênica e trouxe a idéia de que a resposta a gordura saturada e o colesterol da dieta podem ser diferentes entre os indivíduos portadores de diferentes alelos da APOE. Esta heterogeneidade é esperada em função dos múltiplos fatores que caracterizam os fenótipos analisados. Resultados positivos foram freqüentes nesses estudos que relatam significativa associações quando os indivíduos eram moderadamente hipercolesterolêmicos e ou tiveram diferenças significativas no colesterol total e LDL entre os grupos com diferentes genótipos de APOE, sugerindo que o gene importante pela interação dieta resulta apenas em indivíduos que são suscetíveis a hipercolesterolemia. Outras interações foram mais comumente observados entre os estudos em que o consumo total da dieta de gordura e colesterol foram modificados. É possível que o colesterol da dieta tenha desempenhado um efeito significativo na interação gene-dieta. Outros componentes da dieta têm revelado importância nas interações. Este é o caso da ingestão de álcool. Embora o aumento do efeito de álcool e o consumo de lipoproteína de alta densidade (HDL)-colesterol está bem estabelecida, os efeitos sobre o LDL-C ainda é incerto. Corella et al (2008) verificou que homens que não consumiam bebidas alcoólicas, os níveis de LDL-C não foram diferentes entre os diferentes grupos de APOE ao contrário para os homens que consumiam, o grupo E2 teve níveis menores de LDL. Nos homens do grupo E4, os níveis de LDL eram mais altos nos que bebiam do que os que não bebiam. Em mulheres, os efeitos esperados no LDL pelos alelos APOE estavam presentes em ambos os grupos (consumo e não consumo de bebidas alcoólicas). Fumar também tem mostrado ser um modulador potencialmente importante do efeito da APOE em risco de DCV. E o efeito da pratica de atividade física sobre as concentrações plasmáticas de lipídeos também estão interligados com genótipo e a APOE.

A obesidade como um fenótipo de modulação dos efeitos das variações genéticas
A APOE pode ser usada também como um modelo para ilustrar o efeito da obesidade em associações ao genótipo-fenótipo. Ao examinar a interação entre a obesidade e o genótipo APOE na determinação da insulina e glicemia em cerca de 3000 participantes através do Framingham Offspring Study, em homens, observa-se um aumento significativo na interação entre a obesidade, a APOE, a insulina e a glicose. Os homens obesos com o genótipo APO E4 apresentaram níveis mais altos de glicose e insulina do que os homens obesos em os outros grupos de genótipos. Não houve associação entre genótipo e insulina ou glicose em indivíduos eutróficos. Em mulheres, o efeito da interação entre genótipo APOE, obesidade, insulina e glicose não foi significativa. Portanto, a obesidade modula a associação entre o genótipo de APOE, a insulina e os níveis de glicose em homens.Embora o controle de peso seja importante para todas as pessoas, pode ser especialmente importante em homens com o genótipo APOE4 para modificar potencialmente os níveis elevados de insulina e glicemia.

Conclusão: A nutrigenômica poderá possibilitar a compreensão de como a dieta interage com o genoma humano para alterar o fenótipo e assim influenciar a saúde e a doença e, além disso, como a variabilidade genética influencia a resposta à dieta. Os profissionais de saúde irão utilizar estes dados para orientar medidas individualizadas para prevenção de doenças e para que o envelhecimento seja com qualidade de vida e saudável. No entanto, muitos estudos ainda devem ser realizados para esclarecer, os mecanismos que não estão elucidados.

Autor: Jose M. Ordovas – Publicação: Obesity (Silver Spring). 2008 December ; 16(Suppl 3): S40–S46.

Fonte da matéria: RGNutri
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