Fungo ameaça a qualidade do chocolate

Chocolate em extinção?!
Uma praga põe em risco os cacaueiros e o seu fruto, a matéria-prima de uma das guloseimas mais consumidas mundo afora — o que é uma tremenda ameaça para os chocólatras e a nossa saúde.

Olhe bem para uma tentadora caixa de bombons. Pegue uma delícia, abra sem culpa e saboreie bem de-va-gar. Esse prazer não vai desaparecer tão cedo da sua vida. Bem, não se depender dos agricultores, biólogos e cientistas do mundo inteiro que estão se esforçando para proteger a preciosa matéria-prima do chocolate, o cacau

O fruto do cacaueiro está sob a ameaça de uma praga muito traiçoeira. “É um fungo chamado vassoura-de-bruxa, que se espalha pelo ar e pela água e causa estragos imensos nas plantações”, descreve Gonçalo Amarante, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas, no interior paulista. O nome científico da peste é Moniliophthora perniciosa e já varreu grande parte da lavoura nacional, desde que atacou o sul da Bahia, a partir do fi nal dos anos 1980.

A preocupação dos pesquisadores é que a vassoura-de-bruxa, que ainda hoje não foi erradicada do Brasil, se espalhe para outros continentes. “Ela pode chegar às plantações na África e Ásia, onde estão os maiores produtores de cacau do mundo”, conta Roger Leakey, professor aposentado de agroecologia da Universidade James Cook, na Austrália. Para evitar esse risco, novas técnicas são investigadas todos os dias.

Uma delas, testada em solo baiano, parece funcionar bem. “É o chamado roletamento, que consiste em fazer a poda antecipada do cacaueiro para que ele floresça antes do tempo, no primeiro semestre”, explica Gonçalo. Assim, a árvore se arma contra o fungo, que, nessa época do ano, não tem tanta força. No entanto, mais estudos ainda são necessários. “O caminho é desenvolver cacaureiros mais resistentes e produtivos, além de fungicidas que combatam a vassoura-de-bruxa.”

Delícia dos deuses
O famoso fruto que serve de base ao chocolate vem de uma árvore relativamente pequena (ela atinge até 6 metros) e bastante popular em países de clima quente e úmido como o Brasil. Muito antes de ouvirmos falar de chocolate, o Theobroma cacao, o nome científico do cacaueiro, já era conhecido pelos antigos maias, civilização pré-colombiana que habitou a América Central. Eles acreditavam que o cacau era um presente dos deuses e, num ato de inspiração, trituraram suas sementes, moeram, acrescentaram água e pimenta e, voilà!, assim criaram a primeira versão do chocolate. A receita chegou à Europa graças aos conquistadores espanhóis, e, depois de muita gente colocar a mão, nasceu a guloseima mais popular do mundo.

Cheio de benefícios
Os flavonoides e antioxidantes presentes no cacau são preservados no chocolate. Por isso, essa delícia faz maravilhas pela saúde. Se você comer o tipo certo (o amargo) e a quantidade ideal (só 30 gramas por dia), ele contribui para fortalecer nossas defesas, os níveis de HDL, o colesterol bom, melhorar o raciocínio e a disposição. Também pode reduzir a pressão arterial, as taxas de LDL, a versão ruim do colesterol, o apetite e o risco de câncer. Quer dizer, isso tudo se a qualidade do chocolate não despencar…

Um dos piores feitiços da vassoura-debruxa é alterar a qualidade do chocolate — e suas propriedades em prol da saúde, consequentemente. Quando não destrói a lavoura, o fungo modifica o sabor e o valor nutritivo dos frutos, que mesmo assim são comercializados no Brasil. “Alguns produtores brasileiros misturam as sementes boas e ruins e as revendem para as indústrias de processamento”, acusa Valdecir Luccas, gerente da área de chocolates do Instituto de Tecnologia de Alimentos de São Paulo, o Ital. O resultado é que a gente corre o risco de levar à boca um produto de baixa categoria e com menos benefícios para o corpo.

A pesquisadora Priscilla Efraim, também do Ital, investigou esse risco durante sua pesquisa de doutorado na Unicamp, quando comparou cacaus sadios e doentes. “Descobrimos que a formação dos compostos que dão sabor ao chocolate é afetada nas sementes de frutos atingidas pelo fungo”, diz ela. Além disso, as sementes apresentaram menos teor de manteiga de cacau, um ingrediente-chave do chocolate. “Depois de fermentadas, as atingidas também perderam mais polifenóis em relação às sementes boas”, revela. E os polifenóis são poderosos antioxidantes, substâncias que combatem os radicais livres, moléculas acusadas de provocarem o envelhecimento precoce e até tumores.

A descoberta de Priscila é um alerta para que os produtores brasileiros abram o olho na hora de selecionar as sementes. “Vários agricultores da Bahia já estão se organizando em entidades para comercializar apenas amêndoas de cacau fino, de boa qualidade”, diz Gonçalo, comemorando. Para o consumidor, resta optar por produtos de fabricantes confiáveis. E, na hora da compra, priorizar sempre o tipo amargo do chocolate (noir, em francês, e dark, em inglês). “Ele é muito mais rico em cacau, por isso faz tão bem à saúde”, garante a médica e nutróloga Valéria Goulart, de São Paulo.

Estudos mostraram que esse tipo da gostosura protege o coração, controla a pressão arterial, ajuda a prevenir o diabete do tipo 2, estimula o raciocínio, combate a fadiga… Quer mais? “Comer 30 gramas (três quadradinhos) de chocolate amargo pela manhã, em jejum, pode reduzir em 15% a ingestão de calorias ao longo do dia”, diz Valéria. É um verdadeiro alimento dos deuses — e, convenhamos, nem é tão amargo assim.

Fonte: SAÚDE! É vital

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