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Boquinha noturna

Se você assalta a geladeira à noite, talvez esteja sofrendo da síndrome da fome noturna. Ela compromete o sono e o humor, além de aumentar consideravelmente o peso na balança. Saiba como se livrar dessa doença que afeta 10% dos obesos

A empresária Pietra Roche, 33 anos, não sentia apetite pela ma- nhã, dormia pouco e, à noite, assaltava a geladeira. Fez alguns exames, procurou ajuda e obteve o diagnóstico: síndrome da fome noturna. Pois é, esse distúrbio, que já tem nome catalogado, foi descoberto em 1955 e vem sendo muito estudado nos últimos anos. Seus sintomas mais freqüentes são a fome noturna, com ingestão de mais de 50% das calorias consumidas durante todo o dia, no período entre 8 h da noite e 6 h da manhã, insônia inicial, anorexia matinal, alterações de humor, depressão, ansiedade e falta de energia.

Estudiosos acreditam que essa síndrome tende a ser desenca- deada pelo estresse e que seus sintomas devem diminuir quando o problema é aliviado. O endocrinologista Filippo Pedrinola, da Clínica Pedrinola e Rascovski, de São Paulo, explica que essa doença acomete 1,5% da população geral e está presente em 10% dos obesos e 27% dos portadores de obesidade mórbida. “As pessoas que sofrem desse mal costumam não tomar café da manhã e ficam várias horas sem comer após despertar. Consomem muitas calorias durante a noite, em vários episódios, e beliscam principalmente alimentos ricos em carboidratos refinados e gorduras (doces em geral, pizza, frituras etc.), que são altamente calóricos”, conta o especialista.

Os comedores noturnos sentem o impulso de comer, apesar de uma falta de fome percebida. Alimentos como macarrão e al- môndegas costumam ser devorados na própria panela. As pessoas afetadas também podem apresentar comportamentos estranhos e ingerir misturas um tanto diferentes como comida de gato. “Embora esse transtorno alimentar ainda seja pouco conhecido, os relatos de pacientes mostram que eles são capazes de levantar-se várias vezes durante a noite para atacar a geladeira. Acredite: há quem acorde até seis vezes”, revela a doutora em Psicologia Clínica Célia Horta, espe- cialista em Distúrbios Alimentares pela Universidade de São Paulo (USP). Segundo ela, à noite, quando tudo se acalma e há menos dis- tração, os compulsivos se encontram teoricamente mais vulneráveis. “É quando correm para a geladeira a fim de compensar suas frustrações”, resume.

Bife na madrugada
“Eu não resisto. Já fritei um bife para devorá-lo no meio da noite. E isso jamais aconteceu em outro momento. Coisas que eu não gosto no dia-a-dia, na madrugada se transformam em verdadeiras tentações”, revelou um paciente da psicóloga Célia Horta. Quem sofre desse mal, não consegue controlar o impulso. “Parece que sou um drogado. Até me bate o desespero”, revela o vendedor Ulisses Di Domenico, de São Paulo. Quando se deu conta da doença, ele estava com 25 anos. Hoje, tem 47. Nesse meio tempo, emagreceu e engordou várias vezes. Começou a fazer exercícios físicos e conseguiu baixar o ponteiro para 86 quilos, mas os ataques noturnos à geladeira atrás de alimentos altamente calóricos atrapalharam o esforço que vinha fazendo. “Já cheguei a comer uma pizza de escarola inteira”, admite o vendedor, no auge dos seus 96 kg. A medicina reconhece que há, pelo menos, dois causadores desse mal. Um deles é a melatonina, responsável pelo início e pela manutenção do sono. O outro é a leptina, que é produzida pelo tecido gorduroso e vai agir no cérebro, nos centros da fome e da saciedade. “O desequilíbrio dessas substâncias é que faz Ulisses acordar na madrugada com aquela vontade de devorar alguma coisa”, explica o endocrinologista Filippo Pedrinola. Sob o ponto de vista neuroendócrino, uma pesquisa constatou que os comedores noturnos possuem níveis mais altos de cortisol (hormônio do estresse) durante o dia e índices baixos de melatonina (hormônio que regula o sono) à noite.

Acredite: há quem acorde até seis vezes durante a noite para beliscar alimentos altamente calóricos
CÉLIA HORTA, PSICÓLOGA

Possíveis gatilhos
A fome noturna pode também ser desenca deada por uma fuga de problemas emocionais e falta de disciplina alimentar. Para evitar esses períodos de compulsão, que só atrapalham a saúde e a boa forma, é preciso equilíbrio na alimentação durante o dia. Isso significa não pular refeições e consumir fibras (frutas, vegetais e cereais integrais), além de aumentar a ingestão de água.

A psicoterapeuta Rejane Sbrissa, especialista em Terapia para Tratamento de Obesidade, atribui o ato de comer à noite a uma alteração de comportamento. “Seus portadores devem analisar o que está errado em sua alimentação. Muitas vezes uma dieta mal estruturada é a causa dessas escapadas no- turnas”, conta ela, que emagreceu 25 kg em menos de dois anos e há 14 se mantém magra. Hoje é responsável pelo site www.pensemagro.com.br e tem relatos no seu portal.

Curiosamente, nem sempre as pessoas que sofrem desse problema têm consciência do que fazem e só descobrem o que ocorreu quando encontram restos de comida no quarto, pratos sujos na cozinha ou pacotes de biscoitos vazios pela casa. Têm características dife- rentes dos comedores compulsivos – uma vez que a quantidade de alimentos ingerida nem sempre é gran- de –, mas sentem uma forte necessidade de comer alguma coisa para que possam voltar a dormir. Se não o fizerem, ficam com insônia.

O aparecimento desse “descontrole” é mais freqüente entre os 20 e os 30 anos de idade. Pode ser originado, por exemplo, por uma frustração amorosa, pela insegu- rança no trabalho ou qualquer outro problema cotidiano. Estudos revelam que a prevalência é igual nos dois sexos, mas as mulheres procuram mais o acompanhamento médico do que os homens. “Elas buscam o tratamen- to não porque estejam preocupadas com os episódios de compulsão alimentar, mas sim com os sinais de so- brepeso ou obesidade. Em geral, os homens não se in- comodam com isso”, explica João César Castro Soares, endocrinologista e nutrólogo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), na Capital.
Bálsamos que aliviam
É difícil, mas quem tem o distúrbio precisa adotar estratégias alimentares urgentes. Uma dica é deixar uma comidinha preparada para saciar esses momentos de fome noturna após o jantar. Pode ser um iogurte ou uma fatia de pão com geléia sem açúcar. Os tipos integrais são os mais indicados. Ricos em fibras, esses alimentos aumentam a saciedade. “As frutas também são poderosas. A frutose – açúcar da fruta –, vai direto para a circulação e ajuda a combater a gula. Uma xícara (chá) de leite quente, uma xícara de chá de ervas com duas torradas ou uma sopa leve são também boas opções”, sugere João César Castro Soares. Agora, se a vontade for mesmo a de devorar um chocolate – maior reclamação dos compulsivos –, o exagero pode ser despistado com um bombom ou uma tigela pequena de frutas, salpicada com pedaços de uma barra de chocolate (30 g). Despertou e não consegue dormir de modo algum? “Lance mão de um bom livro ou ouça uma música relaxante até o sono voltar”, aconselham especialistas. O tratamento ainda é incerto, mas o que se recomenda é a combinação de psicoterapia com o objetivo de melhorar as causas de ansiedade e estresse. Normalmente, a preferência para o tratamento recai sobre os antidepressivos, que agem para regular o sono e a compulsão em comer. Os efeitos colaterais podem ser amenos, mas, segundo a psicoterapeuta Rejane Sbrissa, não é possível ainda falar em resposta definitiva ou a longo prazo, pois, como os causadores dessa síndrome ainda são desconhecidos, os sintomas podem retornar.

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Dr. Vinícius Graton é Nutricionista atuante na Nutrição Clínica & Nutrição Esportiva. Em Uberlândia/MG atende na Clínica Renova - Rua Bernardo Guimarães 417 - Bairro Fundinho. Contato (34) 3255-1237 ou 3231-8655. Para Assessoria Online envie WhatsApp (34)98407-3617

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